Começou com uma história e nunca mais parou: a livreira que cria leitores há 20 anos

Sofia Vieira transformou Santarém num território de contos e imaginação, criando leitores e aventuras para os mais novos, ao abrir a “Aqui há gato”. Da livraria independente ao digital, o projeto continua a encantar milhares de crianças e famílias.
 
Rui Mendes Morais
Rui Mendes Morais Jornalista
07 abr. 2026, 08:00

“Quem conta um conto, acrescenta um ponto”, o ditado popular não podia fazer mais sentido para Sofia Vieira, de 46 anos, fundadora da livraria “Aqui Há Gato”, em Santarém, que há quase 20 anos promove a leitura no concelho e cria novas gerações de leitores. 

Com formação em Psicologia Educacional e um percurso ligado às artes desde a infância, a contadora de histórias encontrou o seu caminho quase por acaso. O momento decisivo aconteceu numa feira do livro em Moura, quando aceitou, com alguma resistência, contar histórias a um público muito maior do que esperava. A paixão surgiu assim que acabou de contar a história: “Pensei, é isto que eu quero fazer o resto da minha vida”.

A partir daí, não houve volta atrás. Aos 27 anos, decide abrir uma livraria infantil em Santarém, no centro histórico da cidade, uma decisão que lhe trouxe alegrias, mas também dificuldades desde o início. “Ter uma livraria independente, infantil, em Santarém, foi muito difícil”. Ainda assim, manteve-se firme, guiada por uma convicção, a de continuar.

Mais do que vender livros, Sofia Vieira criou um espaço vivo de cultura e imaginação, com sessões regulares de histórias, oficinas e até noites temáticas em que as crianças dormem na livraria. A experiência começa ainda nas ruas dos centros históricos: os visitantes são guiados por um percurso encantado de “patas de gato”, colocadas pelo centro histórico de Santarém, transformando cada rua num convite à aventura. “Todos os caminhos vem dar à livraria”, como se a cidade inteira conspirasse para que ninguém ficasse de fora da magia dos contos ali contados, 

Há sessões regulares de histórias aos sábados, uma às 11h30 e outra às 16h00, oficinas e até noites temáticas em que as crianças dormem na livraria. A experiência começa ainda na rua, com um percurso de “patas de gato”, que guia os visitantes até à livraria, transformando o centro histórico num jogo. O nome da livraria nasceu de forma inesperada - “eu costumo dizer que as fadas me disseram ao ouvido” - recorda, destacando que só escolheu o nome para o espaço “no último segundo, à véspera de entregar o projeto”, acrescentando que se revê no nome “pelo mistério e pela magia”.
 

Começou com uma história e nunca mais parou: a livreira que cria leitores há 20 anos

 

A página de virada 

Durante anos, a sustentabilidade foi um desafio constante. A solução passou por diversificar: sair da livraria e levar as histórias às escolas, mas foi a pandemia que mudou tudo. Com o país fechado, Sofia Vieira começou a contar histórias online, inicialmente sem qualquer estratégia. “O meu pensamento foi apenas esse, eu não tenho nada para fazer (…), parada em casa não fico”. Os vídeos em direto nas redes sociais, a contar histórias, foi o que alavancou a situação da livraria independente, atraindo “milhares de pessoas, até portugueses fora do país (…) que começaram a comprar livros”, parados até então nas prateleiras. 

O que começou como uma resposta ao isolamento rapidamente cresceu para milhares de espectadores. Hoje, o projeto expandiu-se para o digital, com um canal no YouTube que soma mais de 128 mil subscritores e cerca de 6 milhões de visualizações mensais. A livraria, por sua vez, renasceu. Agora num espaço maior, que continua a receber famílias de todo o país, mantendo a essência: a proximidade, a imaginação e o poder das histórias.

A digitalização tem permitido alcançar outros públicos e cativar a atenção dos mais novos. Uma estratégia sublinha a importância do livro ser “para todos. Quer para as crianças que podem comprar, quer também para todas as que não tem” e, mesmo assim, têm o direito de ler e de conhecer histórias.

Duas décadas depois do ponto de virada em Moura, mantém a mesma certeza: “foi esse momento que me permitiu estar aqui hoje, após 20 anos depois”. A livreira permanece agora com com duas motivações: “A de criar leitores”, mas também de continuar a acrescentar pontos - aos contos e à vida de quem a ouve.